segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mesmo com prestígio, Silval não emplaca nome de Dilma


Um dos maiores cabos eleitorais da presidente eleita, Dilma Rousseff (PT) em Mato Grosso, o governador reeleito Silval Barbosa (PMDB), não conseguiu convencer os eleitores de seu próprio município a votar em sua candidata. Em Matupá, a pestista teve 3.244 votos (46,20%), ficando atrás do adversário José Serra (PSDB), que teve 3.778 (53,80%).
A derrota no município provocou revolta no coordenador estadual da campanha pró-Dilma no segundo turno, o diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), Luiz Antonio Pagot, que destacou que a cidade recebeu uma série de benefícios do governo federal. Além de Matupá, ele elencou como municípios que o decepcionaram Primavera do Leste e Sinop.
Silval saiu da Capital para ir votar em sua cidade e desembarcou em Matupá por volta das 8h30, acompanhado da primeira-dama Roseli Barbosa. Às 11h, ele foi votar na escola Antônio Ometo e depois atendeu a imprensa local. O governador também aproveitou a oportunidade para agradecer os votos que ele próprio recebeu no município.
Ele, que já foi prefeito de Matupá, contou com o apoio maciço dos eleitores do município para se emplacar como governador. No dia 3 de outubro, recebeu 5.840 votos (82,7%) e mostrou que tem prestígio não só na cidade, mas com os prefeitos de todo o Estado. No primeiro grande ato pró-Dilma, ainda sob sua coordenação, Silval reuniu quase 120 gestores municipais num encontro com o então candidato à vice-presidência, Michel Temer (PMDB). Contudo, o bom relacionamento político não se reverteu em votos para a petista, que no Estado, recebeu 729.747 votos (48,89%), ficando 33.158 votos atrás de Serra, com 762.905 (51,11%).

Desafios para a presidente Dilma Rousseff

 

 Celebramos alegremente a vitória de Dilma Rousseff.

E não deixamos de folgar também pela derrota de José Serra que não mereceu ganhar esta eleição dado o nivel indecente de sua campanha, embora os excessos tenham ocorrido nos dois lados.

Os bispos conservadores que, à revelia da CNBB, se colocaram fora do jogo democrático e que manipularam a questão da descriminalização do aborto, mobilizando até o Papa em Roma, bem como os pastores evangélicos raivosamente partidizados, sairam desmoralizados.

Post festum, cabe uma reflexão distanciada do que poderá ser o governo de Dilma Rousseff.
Esposamos a tese daqueles analistas que viram no governo Lula uma transição de paradigma: de um Estado privatizante, inspirado nos dogmas neoliberais para um Estado republicano que colocou o social em seu centro para atender as demandas da população mais destituida.

Toda transição possui um lado de continuidade e outro de ruptura.

A continuidade foi a manutenção do projeto macroeconômico para fornecer a base para a estabilidade política e exorcizar os fantasmas do sistema.

E a ruptura foi a inauguração de substantivas políticas sociais destinadas à integração de milhões de brasileiros pobres, bem representadas pela Bolsa Familia entre outras.

Não se pode negar que, em parte, esta transição ocorreu pois, efetivamente, Lula incluiu socialmente uma França inteira dentro de uma situação de decência. Mas desde o começo, analistas apontavam a inadequação entre projeto econômico e o projeto social. Enquanto aquele recebe do Estado alguns bilhões de reais por ano, em forma de juros, este, o social, tem que se contentar com bem menos.

Não obtante esta disparidade, o fosso entre ricos e pobres diminuiu o que granjeou para Lula extraordinária aceitação.

Agora se coloca a questão: a Presidente aprofundará a transição, deslocando o acento em favor do social onde estão as maiorias ou manterá a equação que preserva o econômico, de viés monetarista, com as contradições denunciadas pelos movimentos sociais e pelo melhor da inteligentzia brasileira?

Estimo que, Dilma deu sinais de que vai se vergar para o lado do social-popular. Mas alguns problemas novos como aquecimento global devem ser impreterivelmente enfrentados. Vejo que a novel Presidente compreendeu a relevância da agenda ambiental, introduzida pela candidata Marina Silva.

O PAC (Projeto de Aceleração do Crescimento) deve incorporar a nova consciência de que não seria responsável continuar as obras desconsiderando estes novos dados. E ainda no horizonte se anuncia nova crise econômica, pois os EUA resolveram exportar sua crise, desvalorizando o dólar e nos prejudicando sensivelmente.

Dilma Rousseff marcará seu governo com identidade própria se realizar mais fortemente a agenda que elegeu Lula: a ética e as reformas estruturais. A ética somente será resgatada se houver total transparência nas práticas políticas e não se repita a mercantilização das relações partidárias(“mensalão”).

As reformas estruturais é a dívida que o governo Lula nos deixou. Não teve condições, por falta de base parlamentar segura, de fazer nenhuma das reformas prometidas: a política, a fiscal e a agrária. Se quiser resgatar o perfil originário do PT, Dilma deverá implementar uma reforma política. Será dificil, devido os interesses corporativos dos partidos, em grande parte, vazios de ideologia e famintos de benefícios.

A reforma fiscal deve estabelecer uma equidade mínima entre os contribuintes, pois até agora poupava os ricos e onerava pesadamente os assalariados. A reforma agrária não é satisfeita apenas com assentamentos. Deve ser integral e popular levando democracia para o campo e aliviando a favelização das cidades.

Estimo que o mais importante é o salto de consciência que a Presidente deve dar, caso tomar a sério as consequências funestas e até letais da situação mudada da Terra em crise sócio-ecológica.

O Brasil será chave na adaptação e no mitigamento pelo fato de deter os principais fatores ecológicos que podem equilibrar o sistema-Terra. Ele poderá ser a primeira potência mundial nos trópicos, não imperial mas cordial e corresponsável pelo destino comum.

Esse pacote de questões constitui um desafio da maior gravidade, que a novel Presidente irá enfrentar. Ela possui competência e coragem para estar à altura destes reptos. Que não lhe falte a iluminação e a força do Espírito Criador.

Leonardo Boff escreveu com Rose Marie Muraro,Feminino e Masculino (Record) 2002.

Aécio e Marina lideram apostas para 2014

Assim como os dois, há outras lideranças mais jovens que aproveitaram a eleição deste ano para se consolidar

01 de novembro de 2010 | 0h 00
 
 
Marcelo de Moraes - O Estado de S.Paulo
Com a eleição presidencial polarizada pela petista Dilma Rousseff e pelo tucano José Serra, uma corrida política paralela foi deflagrada para garantir posições vantajosas na disputa de 2014. Assim, projetos nacionais de poder já foram incubados em várias disputas regionais.
Andre Dusek/AE
Andre Dusek/AE
Desempenho. Eleito senador, Aécio ainda emplacou Anastasia e garantiu vaga para Itamar
Alguns desses movimentos foram bem claros. É o caso do ex-governador mineiro Aécio Neves (PSDB) e da senadora Marina Silva (PV-AC). Mas há outros nomes desde já de olho na disputa de 2014: os governadores eleitos de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e do Paraná, Beto Richa (PSDB), além dos governadores reeleitos de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), e do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB).
Assim como Marina e Aécio, todos representam lideranças mais jovens que aproveitaram a eleição para se consolidar e ocupar papel de destaque no cenário político nacional.
Aécio, de 50 anos, ganhou tudo em Minas. Foi eleito senador com votação expressiva, emplacou o sucessor Antônio Anastasia (PSDB) no governo e garantiu a vaga de senador para o ex-presidente Itamar Franco (PPS), derrotando na mesma eleição o ex-ministro Hélio Costa (PMDB), e o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel (PT). O resultado credencia o tucano como melhor aposta do PSDB para a sucessão presidencial daqui a quatro anos.
Marina Silva, de 52 anos, é nome consolidado para 2014. Credenciada por quase 20 milhões de votos no primeiro turno, mesmo contando com uma estrutura mínima de campanha e quase nenhum tempo de propaganda na televisão, ela se tornou a maior surpresa da corrida presidencial deste ano. Sua campanha bem sucedida formou uma base bastante sólida para a próxima eleição.
Geração. Eduardo Campos, de 44 anos, lidera o projeto nacional do PSB, que ampliou bastante sua representação no País. Cabral, de 47 anos, também se consolidou como maior liderança do Rio, deixando para trás grupos importantes representados pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM) e pelo ex-governador Anthony Garotinho (PR). Passa a ser mais importante ainda se o PMDB decidir bancar um projeto de candidatura presidencial descolado da parceria com o PT.
Entre os tucanos, Alckmin, de 57 anos, dá a volta por cima na sua trajetória política com a eleição para o governo de São Paulo.
Comandando o Estado mais populoso do País, passa a ter importância política para planejar uma nova campanha para o Palácio do Planalto, depois de ter sido batido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2006.
Beto Richa, de 44 anos, saiu da Prefeitura de Curitiba para o comando do governo do Paraná, derrotando o senador Osmar Dias (PDT), que tinha o apoio de Lula e do governador Roberto Requião (PMDB). Os dois tucanos, no entanto, precisariam antes superar o bom momento de Aécio dentro do partido.
Na prática, a transição entre as disputas de 2010 e 2014 representa uma espécie de troca de gerações na política brasileira. Depois de dois mandatos, Lula deixará o governo com 65 anos. Pode até tentar um novo mandato em 2014, mas já estará perto dos 70 anos. Os dois principais candidatos à sua sucessão também passaram dos 60 anos. José Serra tem 68 anos e Dilma está com 62 anos. Eleita, é candidata quase certa à reeleição.
Há ainda o caso do deputado Ciro Gomes, de 52 anos, que sonhava com sua terceira campanha presidencial, mas viu o plano ser barrado pela direção do PSB e pelo próprio Lula e não disputou nenhum cargo este ano.
Projetos regionais. Um bom resultado nas eleições, entretanto, não garante o sucesso dessas incubadoras políticas. O principal problema é que, tradicionalmente, a maioria dos partidos não desenvolve projetos de poder em nível nacional. Preferem concentrar suas atenções nas disputas regionais onde possuem lideranças expressivas.
Ciro Gomes experimentou na pele a situação este ano. O PSB preferiu investir na parceria nacional com o PT em torno da candidatura de Dilma e ganhar o apoio petista em campanhas estaduais consideradas estratégicas pelo partido. Em troca, o PT decidiu abrir mão de candidaturas em locais importantes, como Ceará, Pernambuco e Espírito Santo, por exemplo. A estratégia garantiu a vitória do PSB nesses três Estados já no primeiro turno.
Essa falta de interesse dos maiores partidos em ter candidatos na eleição para o Palácio do Planalto fica clara na atual disputa. Entre os partidos com representação expressiva dentro do Congresso, apenas PT, PSDB, PV e PSOL bancaram candidaturas majoritárias - outras cinco legendas pequenas também participaram da disputa.
O PMDB é o principal exemplo desse tipo de comportamento. Apesar de ser líder em número de parlamentares dentro do Congresso e sempre ter número expressivo de governadores, não lança um candidato à Presidência desde 1994, quando Orestes Quércia terminou em quarto lugar. Depois disso, passou a se concentrar com sucesso nas disputas estaduais e, agora, chega à Vice-Presidência da República.
NOVA GERAÇÃO
Aécio Neves (PSDB-MG)
O ex-governador mineiro é considerado nome certo para disputar a eleição presidencial daqui a quatro anos. Sai fortalecido ao se eleger senador, emplacar Antônio Anastasia (PSDB) como sucessor no governo de seu Estado e garantir a vitória de Itamar Franco (PPS) para a segunda vaga no Senado por Minas
Beto Richa (PSDB-PR)
Depois de ganhar duas eleições seguidas para a Prefeitura de Curitiba, chegou ao governo do Paraná e ganha relevância dentro do PSDB
Eduardo Campos (PSB-PE)
Novamente vitorioso, o governador de Pernambuco deve deflagrar em 2014 o projeto de candidatura própria do PSB ao governo federal
Geraldo Alckmin (PSDB-SP)
Chegou a disputar o segundo turno presidencial contra Lula em 2006, mas perdeu espaço. Com a nova eleição para o governo de São Paulo, recupera terreno político e pode ser opção para o Planalto, mas numa escala abaixo de Aécio
Marina Silva (PV-AC)
Participante da disputa pela Presidência, Marina foi a sensação da reta final do primeiro turno eleitoral. Com quase 20 milhões de votos, aproveitou a atual campanha para construir bases sólidas para uma candidatura competitiva daqui a quatro anos
Sérgio Cabral (PMDB-RJ)
Reeleito, será o governador dos preparativos para a Copa de 2014 (a final será disputada no Rio) e da Olimpíada de 2016. Pode entrar no jogo nacional de 2014 se o PMDB resolver investir em candidatura própria

Dilma ganha em quatro cidades do Grande ABC

Sérgio Vieira
Do Diário do Grande ABC

A petista Dilma Rousseff também garantiu a vitória no Grande ABC. Ela ganhou do tucano José Serra em quatro cidades: São Bernardo, Diadema, Mauá e Rio Grande da Serra. O ex-governador de São Paulo ficou na frente em Santo André, São Caetano e Ribeirão Pires.
A maior vantagem da ex-ministra da Casa Civil na região ocorreu em Diadema. Na cidade comandada pelo correligionário Mário Reali, Dilma obteve 66,46% dos votos (160.238), ante 33,54% (80.874). Por outro lado, foi São Caetano que deu a mais larga vitória a Serra na região. Na cidade chefiada pelo aliado José Auricchio Júnior (PTB), o tucano ficou com 68,97% dos votos (62.329), contra 31,03% (28.038) de Dilma.
No primeiro turno, ela só havia perdido justamente no município dirigido por Auricchio. Mudaram de lado na segunda etapa e deram vitória a Serra os eleitores de Santo André e Ribeirão Pires.
A disputa mais apertada foi em Santo André, com 51,2% (207.663) para Serra e 48,8% (197.936) para Dilma.
Em números absolutos, Dilma conquistou 796.993 votos nas sete cidades do Grande ABC, contra 677.566 de José Serra, uma diferença de 119.427 votos.

Petista vence em 15 estados e no Distrito Federal

Em número de Estados, a vitória de Dilma Rousseff ontem foi menor do que a obtida no primeiro turno. No dia 3, a petista sagrou-se vencedora em 18 unidades da Federação, enquanto que agora ela terminou na frente em 15 Estados mais o Distrito Federal.
A maior diferença da petista ante o adversário tucano José Serra foi no Amazonas, onde ela teve 80,6% dos votos, contra 19,4% do ex-governador de São Paulo. Logo depois vem Maranhão (79,1% para Dilma e 20,9% para Serra) e Pernambuco (75,6%, contra 24,4%). São Estados que têm justamente dois aliados de primeira hora da petista: o presidente do Senado, José Sarney (PMDB), e o governador Eduardo Campos (PSB), respectivamente.
O senador eleito Aécio Neves (PSDB) não conseguiu cumprir a promessa de dar a José Serra a vitória no Estado. Dilma obteve dos mineiros 58,5% dos votos, contra 41,5% do tucano. Em contrapartida, a ex-ministra da Casa Civil viu seu avdersário virar o jogo no Rio Grande do Sul, que terá como governador o petista Tarso Genro. Entre os gaúchos, Serra obteteve 51% dos votos, ante 49% de Dilma. No primeiro turno, ela venceu no Estado.
UNÂNIME - Dilma conseguiu a unanimidade entre os nove estados da região Nordeste, motivados, principalmente pela alta aprovação de seu padrinho político, o presidente Lula, e pelo grande número de moradores que recebem o Bolsa Família. Além de Maranhão e Pernambuco, ela venceu em Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe.
Serra também teve sua unanimidade: venceu nos três Estados do Sul.
O Distrito Federal, única localidade em que Marina Silva (PV) saiu vitoriosa no segundo turno, desta vez escolheu Dilma. Na região que voltará a ser comandada pelo PT - com vitória de Agnelo Queiroz -, a nova presidente obteve 52,8%, contra 47,2% de Serra.
Além do Rio Grande do Sul, Dilma também amargou derrota em Goiás, outro Estado em que venceu no primeiro turno.

Dilma vai precisar costurar coalizão, diz cientista político

Agência Brasil
Publicação: 01/11/2010 11:20

Brasília - A presidente eleita Dilma Rousseff "vai ter mais facilidade para governar" do que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, porque vai contar com maioria no Congresso Nacional, avalia o professor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Brasília, David Fleischer. "A oposição dessa forma será menos radical."

A sucessora de Lula precisa contar com três quintos dos votos, em cada Casa, para aprovar mudanças de ordem constitucional, por exemplo. Fleischer destacou que Dilma vai contar com o apoio de 60% dos parlamentares no Congresso, que é o percentual previsto para a sua base aliada. Ele lembra que a presidente, no entanto, "vai ter que costurar sua coalizão, porque terá no seu governo mais parceiros para dividir o bolo".

O crescimento do PSB e o fortalecimento do PMDB, por ser o partido do futuro vice-presidente da República, Michel Temer, são questões que "terão que ser administradas no próximo governo”, na avaliação do cientista político. “Eles vão querer uma fatia maior do bolo e isso vai demandar negociações, por isso ela (Dilma Rousseff) terá que gerenciar bem essa questão."

O professor destacou que o presidente Lula "conseguiu enfraquecer a oposição" nas eleições deste ano, com a derrota de importantes figuras políticas como Tasso Jereissati (PSDB), Arthur Virgílio (PSDB), Heráclito Fortes (DEM) e Marco Maciel (DEM).

A nova situação partidária da oposição, de acordo com David Fleischer, poderá motivar a fusão do PSDB com o DEM ou a criação de legenda.

Sem Lula, era Dilma terá nova relação governo-PT

Publicada em 01/11/2010 às 09h04m
Leila Suwwan


SÃO PAULO - Ao mesmo tempo em que vive seu auge, com a eleição de Dilma Rousseff e de bancadas históricas no Congresso, o Partido dos Trabalhadores tem à frente o desafio de equilibrar sua força política com as exigências da governabilidade balizada pelo aliado PMDB. Dessa forma, bandeiras ideológicas do PT - do controle social da mídia à legalização do aborto - poderão ter de ficar restritas à mobilização social e partidária, poupando o futuro governo de desgastes. Para isso, o partido se prepara para exercitar sua musculatura, na era pós-Lula, pelo Legislativo, sem "imposições programáticas". Na opinião do vice-presidente do partido, Humberto Costa (PE), o resultado das urnas é uma demonstração de que o PT já não vive mais à sombra de Lula e conseguiu amadurecer para não ficar à sombra também da máquina administrativa federal.
- O PT aprendeu com os erros e conseguiu separar o que é o papel do partido e o que é o papel do governo - disse Costa às vésperas da eleição. - O partido também avançou muito no seu papel questionador, e acredito que esses avanços vão ajudar no governo Dilma. O PT vai ter uma função muito mais evoluída no próximo governo porque sabe hoje como deve atuar.
Dilma já decretara que bandeiras históricas do PT serão assunto da sociedade civil organizada. Na campanha, repetia: "Movimento é movimento, sindicato é sindicato, e governo é governo." Na trincheira de governo, para auxiliar nessa separação, estarão Antonio Palocci, cotado para a Casa Civil, e o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, nome certo no primeiro escalão. Entre as batalhas que o PT tentará travar em paralelo estão a redução da jornada de trabalho, a descriminalização do aborto, a taxação de grandes fortunas e a audiência prévia à reintegração de terras invadidas.
Usada em tom de ameaça pela oposição, essa nova relevância programática do PT foi um trunfo pouco alardeado internamente, em parte para evitar temores sobre as "imposições" que o partido poderia fazer a Dilma. Em setembro, o deputado cassado José Dirceu (PT-SP) sintetizou a petroleiros:
- Depois do pós, o 1º de janeiro, a força do partido e sua presença se expressam muito pela participação na vida política do país. Um partido com 30% de votos não pode ser desprezado por nenhum presidente. Temos que chegar para discutir com propostas. Tem uma disputa contra nós na comunicação - disse, sem saber da presença da imprensa. - A eleição da Dilma é mais importante do que a do Lula, porque é a eleição do projeto político, porque a Dilma nos representa.
Dirceu, forte articulador do PT, elegeu o filho Zeca para a Câmara e aguarda apenas o julgamento do mensalão no STF para retomar uma vida política mais ativa. Sua volta ao Executivo é improvável, mas jamais foi descartada. O discurso de Dilma é igual ao dele: não existe pena de "banimento".
A disputa que ele mencionou, com o acirramento e escândalos de campanha, fortaleceu os aliados moderados.
- É Dilma quem dará o ritmo, o perfil e a coloração da prática política do governo. Não há temor (de excessos) do PT. Eles já têm a Presidência, uma vantagem imensa. Para o PMDB, é fundamental a boa convivência na coalizão, especialmente saindo de uma campanha tão violenta - diz Moreira Franco (PMDB), um dos coordenadores do programa de governo, que acabou ficando na gaveta.
Porém, o documento final eliminou as propostas polêmicas do PT e serviu de "embrião" para "pesos e balanços" entre os aliados. Muito atacada na campanha do segundo turno por causa do tema "aborto", Dilma - que acabou prometendo não propor ou sancionar leis que impactem a religião - ainda lançou um programa de governo genérico, sem citar a questão.
- Temos buscado o consenso mínimo, o entendimento. A blindagem, o isolamento e a soberba não servem para construir uma aliança sólida - afirma Moreira Franco.
A primeira grande prova de força do PT será a queda de braço com o PMDB pelas presidências da Câmara e do Senado, em fevereiro. Dela sairão também as relações da "governabilidade" de Dilma. O PT saiu das eleições deste ano como o partido com mais deputados na Câmara. No Senado, conseguiu a maior bancada de sua história.
- O PT vai ter uma importância relativa maior na escolha das mesas em fevereiro, o que será um termômetro da correlação de forças que irá prevalecer - avalia o cientista político da USP André Singer, que já foi secretário de Imprensa de Lula.
Na Câmara, os "nomes naturais" são Cândido Vaccarezza (PT-SP) e Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). O peemedebista já chegou até a ser anunciado como nome certo - e estratégico - pelo vice eleito, Michel Temer (PMDB), que será um articulador político, em paralelo à Casa Civil. No que depender de Vaccarezza, ex-líder do PT e atual líder do governo, o partido terá atuação discreta na Câmara:
- Não tem qualquer bandeira tradicional do PT que esteja em conflito com o governo - disse, logo defendendo a importância da base legislativa majoritária no presidencialismo brasileiro. - Nossa prioridade é dar sustentação política e social ao governo. Se o governo não tiver maioria, cai. A oposição reclama, mas entenderia isso se tivesse lastro democrático.
Costa segue a mesma trilha, cita a antiga vulnerabilidade do governo no Senado e garante que o PT não fará "imposições":
- O fato de o partido crescer não significa que ele vai impor sua agenda. Ele vai desenvolver um diálogo com o governo e com as demais forças que o compõem, tendo a exata noção de que se trata de uma coalizão. O crescimento da bancada, especialmente no Senado, vai ter um papel importante para a governabilidade. O Senado foi um espaço onde a oposição armou sua trincheira para fazer o combate ao governo Lula.